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WALT WHITMAN ( 1819 - 1892 )
Canto A Mim Mesmo
(fragmentos)
1
Com música forte eu venho, com minhas cornetas e meus tambores: não toco hinos só para os vencedores consagrados, toco hinos também para as pessoas batidas e assassinadas.
Vocês já ouviram dizer que ganhar o dia é bom?
Pois eu digo que é bom também perder: batalhas são perdidas com o mesmo espírito com que são ganhas.
Eu rufo e bato o tambor pelos mortos e sopro nas minhas embocaduras o que de mais alto e mais jubiloso posso por eles.
Vivas àqueles que levaram a pior! E àqueles cujos navios de guerra afundaram no mar! E a todos os generais das estratégias perdidas, que foram todos heróis! E ao sem número dos heróis maiores que se conhecem!
2
Quem é que vai por aí aflito, místico, nu? Como é que eu tiro energia da carne de boi que como?
O que é um homem, enfim? O que é que eu sou? O que é que vocês são?
Tudo o que eu digo que é meu, vocês podem dizer que é de vocês: de outro modo, escutar-me seria perder tempo.
Não ando pelo mundo a lastimar o que o mundo lastima em demasia: que os meses sejam de vácuo e o chão seja de lama e podridão.
A gemer e acovardar-se, cheio de pós para inválidos, o conformismo pode ficar bem para os de quarta categoria; eu ponho o meu chapéu como bem quero, dentro ou fora de portas.
Por que iria eu rezar? Por que haveria eu de me curvar e fazer rapapés?
Tendo até os estratos perquirido, analisado até um fio de cabelo, consultado doutores e feito os cálculos apropriados, eu não encontro gordura mais doce do que a inserida em meus próprios ossos.
Em toda pessoa eu vejo a mim mesmo, nem mais nem menos um grão de mostarda, e o bem ou mal que falo de mim mesmo falo dela também.
Sei que sou sólido e são, para mim num permanente fluir convergem os objetos do universo; todos estão escritos para mim e eu tenho de saber o que significa o que está escrito.
Sei que sou imortal, sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um carpinteiro qualquer. Sei que não passarei assim que nem verruga de criança que à noite se remove com um alfinete flambado.
Eu sei que sou majestoso, não vou tirar a paz do meu espírito para mostrar quanto valho ou para ser compreendido: tenho visto que as leis elementares jamais pedem desculpas. (Eu reconheço que afinal de contas, não levo meu orgulho além do nível a que levo a minha casa.)
Existo como sou, isso é o que basta: se ninguém mais no mundo toma conhecimento, eu me sento contente; e se cada um e todos tomam conhecimento, eu contente me sento.
Existe um mundo que toma conhecimento, e este é o maior para mim: o mundo de mim mesmo. Se a mim mesmo eu chegar hoje, daqui a dez mil ou dez milhões de anos, posso alcançá-lo agora bem-disposto ou posso bem-disposto espetar mais.
O lugar de meus pés está lavrado e ajustado em granito: rio-me do que dizem ser dissolução - conheço bem a amplitude do tempo.
3
Eu sou o poeta do Corpo e sou o poeta da alma, as delícias do céu estão em mim e os horrores do inferno estão em mim - o primeiro eu enxerto e amplio ao meu redor, o segundo eu traduzo em nova língua.
Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem e digo que tanta grandeza existe no ser mulher quanta no ser homem, e digo que não há nada maior do que uma mãe de homens.
Canto o cântico da expansão e orgulho: já temos tido o bastante em esquivanças e súplicas, eu mostro que tamanho nada mais é do que desenvolvimento.
você já passou os outros, já chegou a Presidente? É pouco: até aí hão de chegar e irão ainda mais longe.
Eu sou aquele que vai com a noite tenra e crescente, e invoco a terra e o mar que a noite leva pela metade. Aperte mais, noite de peito nu! Aperte mais, noite nutriz magnética! Noite dos ventos do sul, noite das poucas estrelas grandes! Noite silenciosa que me acena - alucinada noite nua de verão!
Sorria, ó terra cheia de volúpia, de hálito frio! Terra das árvores líquidas e dormentes! Terra em que o sol se põe longe, terra dos montes cobertos de névoa! Terra do vítreo gotejar da lua cheia apenas tinta de azul! Terra do brilho e sombrio encontro nas enchentes do rio! Terra do cinza límpido das nuvens, por meu gosto mais claras e brilhantes! Terra que faz a curva bem distante, rica terra de macieiras em flor! Sorria: o seu amante vem chegando!
Pródiga, amor você tem dado a mim: o que eu dou a você, por tanto, é amor - indizível e apaixonado amor!
Canto A Mim Mesmo
(fragmentos)
1
Com música forte eu venho, com minhas cornetas e meus tambores: não toco hinos só para os vencedores consagrados, toco hinos também para as pessoas batidas e assassinadas.
Vocês já ouviram dizer que ganhar o dia é bom?
Pois eu digo que é bom também perder: batalhas são perdidas com o mesmo espírito com que são ganhas.
Eu rufo e bato o tambor pelos mortos e sopro nas minhas embocaduras o que de mais alto e mais jubiloso posso por eles.
Vivas àqueles que levaram a pior! E àqueles cujos navios de guerra afundaram no mar! E a todos os generais das estratégias perdidas, que foram todos heróis! E ao sem número dos heróis maiores que se conhecem!
2
Quem é que vai por aí aflito, místico, nu? Como é que eu tiro energia da carne de boi que como?
O que é um homem, enfim? O que é que eu sou? O que é que vocês são?
Tudo o que eu digo que é meu, vocês podem dizer que é de vocês: de outro modo, escutar-me seria perder tempo.
Não ando pelo mundo a lastimar o que o mundo lastima em demasia: que os meses sejam de vácuo e o chão seja de lama e podridão.
A gemer e acovardar-se, cheio de pós para inválidos, o conformismo pode ficar bem para os de quarta categoria; eu ponho o meu chapéu como bem quero, dentro ou fora de portas.
Por que iria eu rezar? Por que haveria eu de me curvar e fazer rapapés?
Tendo até os estratos perquirido, analisado até um fio de cabelo, consultado doutores e feito os cálculos apropriados, eu não encontro gordura mais doce do que a inserida em meus próprios ossos.
Em toda pessoa eu vejo a mim mesmo, nem mais nem menos um grão de mostarda, e o bem ou mal que falo de mim mesmo falo dela também.
Sei que sou sólido e são, para mim num permanente fluir convergem os objetos do universo; todos estão escritos para mim e eu tenho de saber o que significa o que está escrito.
Sei que sou imortal, sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um carpinteiro qualquer. Sei que não passarei assim que nem verruga de criança que à noite se remove com um alfinete flambado.
Eu sei que sou majestoso, não vou tirar a paz do meu espírito para mostrar quanto valho ou para ser compreendido: tenho visto que as leis elementares jamais pedem desculpas. (Eu reconheço que afinal de contas, não levo meu orgulho além do nível a que levo a minha casa.)
Existo como sou, isso é o que basta: se ninguém mais no mundo toma conhecimento, eu me sento contente; e se cada um e todos tomam conhecimento, eu contente me sento.
Existe um mundo que toma conhecimento, e este é o maior para mim: o mundo de mim mesmo. Se a mim mesmo eu chegar hoje, daqui a dez mil ou dez milhões de anos, posso alcançá-lo agora bem-disposto ou posso bem-disposto espetar mais.
O lugar de meus pés está lavrado e ajustado em granito: rio-me do que dizem ser dissolução - conheço bem a amplitude do tempo.
3
Eu sou o poeta do Corpo e sou o poeta da alma, as delícias do céu estão em mim e os horrores do inferno estão em mim - o primeiro eu enxerto e amplio ao meu redor, o segundo eu traduzo em nova língua.
Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem e digo que tanta grandeza existe no ser mulher quanta no ser homem, e digo que não há nada maior do que uma mãe de homens.
Canto o cântico da expansão e orgulho: já temos tido o bastante em esquivanças e súplicas, eu mostro que tamanho nada mais é do que desenvolvimento.
você já passou os outros, já chegou a Presidente? É pouco: até aí hão de chegar e irão ainda mais longe.
Eu sou aquele que vai com a noite tenra e crescente, e invoco a terra e o mar que a noite leva pela metade. Aperte mais, noite de peito nu! Aperte mais, noite nutriz magnética! Noite dos ventos do sul, noite das poucas estrelas grandes! Noite silenciosa que me acena - alucinada noite nua de verão!
Sorria, ó terra cheia de volúpia, de hálito frio! Terra das árvores líquidas e dormentes! Terra em que o sol se põe longe, terra dos montes cobertos de névoa! Terra do vítreo gotejar da lua cheia apenas tinta de azul! Terra do brilho e sombrio encontro nas enchentes do rio! Terra do cinza límpido das nuvens, por meu gosto mais claras e brilhantes! Terra que faz a curva bem distante, rica terra de macieiras em flor! Sorria: o seu amante vem chegando!
Pródiga, amor você tem dado a mim: o que eu dou a você, por tanto, é amor - indizível e apaixonado amor!
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extraído de "Folhas das Folhas de Relva" (1983, Brasiliense, trad. Geir Campos)
* O Próprio Ser Eu Canto
O próprio ser eu canto: Canto a pessoa em si, em separado embora use a palavra Democracia e a expressão Massa.
Eu canto o Corpo Da cabeça aos pés: Nem só o cérebro Nem só a fisionomia Tem valor para a Musa digo que a forma completa é muito mais valiosa, e tanto a Fêmea quanto o Macho eu canto.
A vida plena de paixão, Força e pulsam, Preparada para as ações mais livres Com suas leis divinas - o Homem Moderno eu canto.
*
Minha voz sai em busca do meus olhos não conseguem alcançar, Com uma virada da língua açambarco mundos e volumes de mundos.
O discurso é gêmeo de minha visão... é inconstante para poder se medir. Está sempre me provocando, Diz com sarcasmo, Walt, você já compreende o suficiente... por que então Não bota tudo pra fora ?
Ora, vamos, não vou ser atormentado... você concebe articulações demais.
*
O dito e o escrito não provam quem sou, Traga a plena prova e todo o resto em meu rosto, Com meus lábios calados confundo o maior dos céticos.
* NÃO ME FECHEM AS PORTAS
Não me fechem as portas, orgulhosas Bibliotecas, Pois justamente o que estava faltando Em tuas prateleiras apinhadas, É o que venho trazer -mal acabando de sair da guerra, um livro escrevi: pelas palavras do meu livro, nada; pelas intenções, tudo ! Um livro à margem, Sem nada a ver com os restantes, E que não pode ser sentido só Com o intelecto. Vocês, porém, com seus silêncios latentes, A cada página hão de estremecer Maravilhadas.
* POETAS DE AMANHÃ
Poetas de amanhã: arautos, músicos, cantores de amanhã ! Não é dia de eu me justificar E dizer ao que vim; Mas vocês, de uma nova geração, Atlética, telúrica, nativa, Maior que qualquer outra conhecida antes - levantem-se: pois têm de me justificar !
Eu mesmo faço apenas escrever Uma ou duas palavras Indicando o futuro; Faço tocar a roda para frente Apenas um momento E volto para a sombra Correndo
Eu sou um homem que, vagando A esmo, sem de todo parar, Casualmente passa a vista por vocês E logo desvia o rosto, Deixando assim por conta de vocês Conceituá-lo e aprová-lo, A esperar de vocês As coisas mais importantes.
* Às vezes com a pessoa a quem amo
Às vezes com a pessoa a quem amo Fico cheio de raiva Por medo de estar só eu dando amor Sem ser retribuído; Agora eu penso que não pode haver amor Sem retribuição, que a paga é certa De uma forma ou de outra. (Amei certa pessoa ardentemente e meu amor não foi correspondido, mas foi daí que tirei estes cantos.)
* NESTE MOMENTO TERNO E PENSATIVO
Neste momento terno e pensativo Aqui sentado a sós Sinto que existem noutras terras outros homens Ternos e pensativos, Sinto que posso dar uma espiada Por cima e avistá-los Na França, Espanha, Itália e Alemanha Ou mais longe ainda No Japão, China ou Rússia, Falando outros dialetos, E sinto que se me fosse possível Conhecer esses homens Eu poderia bem ligar-me a eles Como acontece com homens de minha terra, Ah e sei que poderíamos Ser irmãos ou amantes E que com eles eu estaria feliz.
* Máquina Alguma de Poupar Trabalho
Máquina alguma de poupar trabalho Eu fiz, nada inventei, Nem sou capaz de deixar para trás Nenhum risco donativo Para fundar hospital ou biblioteca, Reminiscência alguma De um ato de bravura pela América, Nenhum sucesso literário ou intelectual, Nem mesmo um livro bom para as estantes - apenas uns poucos canto vibrando no ar eu deixo aos camaradas e amantes.
*
A BASE DE TODA METAFÍSICA
E agora, cavalheiros, eu lhes deixo Uma palavra Para ficar nas mentes de vocês E nas suas memórias Como princípio e também como fim De toda metafísica.
(Tal qual professor aos estudantes ao encerrar seu curso repleto.)
Tendo estudado antigos e modernos, Sistemas dos gregos e dos germânicos, Tendo estudo e situado Kant, Fiche , Hegel, Situado a doutrina de Platão, E outros ainda superiores a Secretas Buscando pesquisar e situar, Tendo estudado bastante o divino Cristo, Eu vejo hoje reminiscências daqueles Sistemas grego e germânico, Deparo todas as filosofias, Templos, dogmas cristãos encontro, E mesmo sem chegar a Secretas eu vejo com absoluta clareza, e sem chegar ao divino Cristo, eu vejo o puro amor do homem por seu camarada, a atração de um amigo pelo amigo, de uma mulher pelo marido e vice-versa quando bem conjugados, de filhos pelos pais, de uma cidade por outras, de uma terra por outra. * Canto 34
Agora eu conto O que eu soube no Texas Em minha juventude (não vou contar a tomada de Álamo, não escapou ninguém para contar a tomada de Álamo, aqueles cento e cinqüenta estão mudos ainda em Álamo): esta é a história do assassinato a sangue frio de quatrocentos e vinte moços.
Em retirada tomaram formação De um quadrado vazio Com as bagagens como parapeitos, Novecentos as vidas do inimigo Que agora os sitiava, Nove vezes o que tinham em número E o preço foi cobrado adiantado, O coronel deles fora ferido E a munição havia terminado, Negociaram capitulação com honra Papel timbrado e assinado, Entregaram as armas e marcharam Prisioneiros de guerra.
Eram o orgulho da raça dos rangers, Inigualáveis em montaria Rifles, canções, repastos, galanteios, Enormes, turbulentos, generosos, Amáveis e orgulhosos, Barbudos, peles tostadas de sol, Trajados à moda descontraída Dos caçadores, Nenhum contava mais de trinta anos.
No segundo Domingo de manhã Foram levantados em grupo e massacrados: era uma linda manhã de verão, a faina começou aí pelas cinco e meia e às oito estava tudo terminado.
Nenhum se quis sujeitar À ordem de ajoelhar, Alguns tentaram inutilmente correr Feito uns alucinados, Alguns ficaram inabaláveis em pé, Alguns poucos tombaram de uma vez Com tiros na fronte ou no coração, Os mutilados e desfigurados ainda cavando o chão, vivos e mortos estirados juntos onde eram vistos pelos recém-vindos, uns meio mortos tentavam sair de rastos e eram então despachados a golpes de baionetas ou esmagados a coronhas de espingardas, um jovem com não mais que dezessete anos agarrou-se ao algoz até virem dois outros afrouxá-lo e ficaram os três todos rasgados e cobertos do sangue do rapaz.
Às onze em ponto Começou a incineração dos corpos. Eis aí a história do assassinato Dos quatrocentos e vinte homens moços. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Poemas de Walt Whitman Trad.: Eduardo Francisco Alves Geir Campos
enviado por Rui Mendes
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